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Convento de St.ª Maria de Jesus ou Paço Real de Afonso III

No Paço Real de Xabregas, que foi também Palácio e Mosteiro, segundo afirma o historiador Norberto de Araújo nas sua “Peregrinações em Lisboa”, teriam habitado, temporariamente, todos os reis de Portugal até D. João IV, à exceção dos que integraram a dinastia dos Filipes.

Onde agora está instalado o Teatro Ibérico, ergueu-se outrora, o Convento de Santa Maria de Jesus, mas, anteriormente, no século XIII, ali ficava o Paço Real de Enxobregas. Este Paço, datado quase desde o início da nossa nacionalidade, foi fundado por D. Afonso III “o Bolonhês”, que se celebrizou por ter tornado Lisboa a capital do Reino.

A tese, contudo, não encontra unanimidade entre os historiadores. No livro “Portugal Pittoresco e Illustrado”, de Alberto Pimentel, este historiador opina que “antes de D. Leonor, já tinha havido em Xabregas, um Paço Real que estava em ruínas no tempo de D. Afonso V. Sabe-se que tinha uma torre e um laranjal contínuo”. Na crónica de Fernão Lopes, o Paço Real de Santos, o de Enxobregas e o de Frielas, são citados como paços, mas não são reais, o que para Júlio Castilho atesta que nenhum rei ali morou. Em “Lisboa Antiga”, de 1934, aquele olissipógrafo comenta que “quem fundasse este paço, não o sei. Querem escritores de muita gravidade que fosse el-Rei D. Afonso III, é possível, mas ainda não encontrei documento que o provasse. Mas há mais. No seu testamento nem uma só vez, alude el-Rei D. Afonso à fundação do paço, em Lisboa e, dizendo autores modernos que em 9 de Outubro de 1261 nascera no Paço de S. Bartolomeu o príncipe que veio a ser o rei D. Dinis, nunca até agora achei essa afirmação fundamentada em autores antigos”.

Os primeiros indícios documentais da existência de um Paço Real em S. Bartolomeu surgem, exatamente, no reinado de D. Dinis. Mas, aqueles que defendem a existência do Paço Real de Enxobregas salientam que no reinado de D. Afonso III foi construída uma residência campestre junto ao Tejo, em Enxobregas, onde este monarca, e os que lhe seguiram, iam passar largas temporadas. Um dos autores da “Monarquia Lusitana” defendeu mesmo que el-Rei D. Dinis doou a seu neto, D. João Afonso, senhor de Albuquerque, uns paços na paróquia de S. Bartolomeu, onde este viveu.

O cronista defende a sua tese na seguinte afirmação: “o sítio onde D. João Afonso viveu em Lisboa, foi a paróquia de S. Bartolomeu, na qual el-Rei seu avô (D. Dinis) lhe deu uns paços que tinha por carta feita, em Lisboa, a 18 de Julho de 1317. Na carta, dizia o rei D. Dinis que “as minhas casas que hei na freguesia de S. Bartolomeu de Lisboa, que foram de Vicente Martins…”.

Porém, Júlio Castilho defende que “se essas casas fossem um paço edificado pelo ilustre pai do doador (D. Afonso III), não havia isso, por força, de constar na carta? O que se percebe é que essas casas eram propriedade de Vicente Martins e, porventura, teriam passado para D. Dinis, por compra ou deixa e que este as doou a seu neto”. Teria D. Afonso III fundado uns Paços em S. Bartolomeu e se os fundou, ali teria nascido o rei D. Dinis?

O olissipógrafo entende que estas questões não estão definidas, porque não se sabe se o prédio doado por el-Rei D. Dinis a seu neto, poderia ou não ter sido aquela casa histórica.

Por outro lado, os historiadores que defendem uma tese contrária à de Júlio Castilho, acreditam que no reinado de D. Fernando, em 1373, o Paço Real de Enxobregas foi incendiado pelos castelhanos que haviam sitiado Lisboa, a mando do rei Henrique II. Impossibilitados de entrar na capital, os castelhanos vingaram-se incendiando grande número de propriedades, nos arredores da cidade. O Paço Real de Enxobregas teria sido uma das propriedades mais atingidas, tendo ficado em ruínas.

Oitenta anos depois, foi ali construído um convento, onde se instalaram os religiosos da congregação dos Franciscanos. A transição ocorreu depois de o rei D. Afonso V ter doado, por alvará, as ruínas do paço a D. Guiomar de Castro, mulher do primeiro conde de Atouguia, que viria a ser avó materna de Afonso de Albuquerque. O alvará passado na vila de Santarém, foi assinado pelo Rei em 17 de outubro de 1455 e nele se dizia que o terreno e os escombros do antigo Paço Real eram doados a D. Guiomar de Castro. As obras para a construção de um convento iniciaram-se ainda nesse ano e Santa Maria de Jesus passou a ser a padroeira do templo.

O Convento de Santa Maria de Jesus ficou concluído a 17 de maio de 1640 e ali entraram os primeiros nove frades, da Ordem de S. Francisco, vindos da Ilha Terceira. Para a história, o convento passaria a ser conhecido como Convento de S. Francisco (da Ordem dos Franciscanos) ou de Xabregas.

O terramoto de 1755 provocou, praticamente, a derrocada do convento, facto que obrigou os frades a viveram largos anos na cerva de Lisboa, em barracas de madeira. A construção de um novo convento, no mesmo local, não tardou. A fachada que ainda hoje observamos, no edifício do Teatro Ibérico, é a mesma da época, com pórtico principal encimado pelo brasão das armas do rei D. José. No convento foi então instalada a imagem de Nossa Senhora Mãe dos Homens, Santa Milagreira, um Calvário, com todas as figuras sagradas, e uma imagem da Nossa Senhora da Paz.

Frei João de Nossa Senhora, conhecido pelo Fradinho de Xabregas, foi um dos cónegos do templo, sendo uma pessoa muito conhecida na Lisboa Joanina. A igreja do Convento era ampla, com capacidade para receber cerva de mil fiéis.

Depois de extintas as Ordens Religiosas, em 1834, os frades foram transferidos e a igreja profanada. Mais tarde, foi ali instalado um quartel da Infantaria Um. O governo liberal ainda pensou em instalar no Convento uma penitenciária e um conservatório de artes e ofícios, mas em 1838, o edifício foi finalmente arrendado à companhia de Fiação e Tecidos de Algodão Lisbonense, que, contudo, ali permaneceria pouco tempo. Um grande incêndio destruiu, em 1844, a quase totalidade do edifício ficando apenas de pé a igreja profanada e algumas dependências.

A remodelação que se seguiu permitiu que, no ano seguinte, ali se viesse a instalar a Fábrica de Tabacos Lisbonense, que em 1891 se passou a designar Companhia de Tabacos de Portugal e, em 1927, Companhia Portuguesa de Tabacos, proprietária também de outros grandes armazéns, à beira Tejo, na zona de Xabregas.

A poente do edifício, em 1937, no lado que dá para o largo de Xabregas, a empresa mandou construir uma creche para as crianças do seu pessoal.

A companhia do teatro Ibérico instalou-se naquele edifício em novembro de 1980, e ainda hoje ali se encontra.

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